Um Cão de Assistência é um Anjo sem Asas: Abílio Leite e os 25 anos da ÂNIMAS ao Serviço da Autonomia

Um Cão de Assistência é um Anjo sem Asas: Abílio Leite e os 25 anos da ÂNIMAS ao Serviço da Autonomia

O trabalho desenvolvido pela ÂNIMAS na formação e atribuição gratuita de cães de assistência em Portugal ganha destaque no mês em que se assinalam o Dia Internacional do Cão de Assistência e o Dia Internacional do Cão, dando também a conhecer as histórias de pessoas cuja autonomia é diariamente reforçada por estes parceiros de quatro patas.

Com quase um quarto de século de história, a ÂNIMAS é a primeira e única entidade em Portugal acreditada pela Assistance Dogs International (ADI) para o treino e atribuição de cães de assistência. Até ao final de 2025, a associação entregou gratuitamente 75 cães em todo o território nacional, proporcionando maior autonomia, segurança e qualidade de vida a pessoas com diversidade funcional. Por trás deste trabalho está uma equipa multidisciplinar dedicada, liderada por Abílio Leite.

A paixão pelos cães e o amor pelas pessoas

Abílio Leite define-se como «um indivíduo que se considera uma pessoa feliz», casado, pai de dois filhos e rodeado por cães desde a infância. Mas, para o presidente da ÂNIMAS, gostar de cães não é suficiente para trabalhar nesta área. «Desde pequeno que sempre tive uma relação especial com os cães. Mas para estarmos na ÂNIMAS não basta gostar de cães. É preciso compreendê-los, mas, em primeiro lugar, gostar de trabalhar com pessoas e ajudar as pessoas a serem um pouco mais felizes após conhecerem a ÂNIMAS», explica.

O seu percurso profissional e académico foi acompanhado por uma formação diversificada. Abílio Leite é licenciado em Engenharia Agronómica pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e mestre em Governação, Competitividade e Políticas Públicas pela Universidade de Aveiro. Complementou a sua formação com uma pós-graduação em Administração Pública pela Universidade Católica Portuguesa e formação especializada em Educação Comportamental e Treino Canino. É também instrutor de cães de assistência.

Gerir uma organização com perto de 25 anos representa uma responsabilidade diária. A longevidade da ÂNIMAS prova que a missão definida pelos fundadores continua viva e exige um compromisso permanente com a qualidade, a ética e a melhoria contínua. Apesar das dezenas de cães entregues e das centenas de pessoas apoiadas, a gestão envolve decisões complexas. Quando confrontado com o momento mais exigente do seu papel, o responsável é perentório: “A maior dificuldade é quando temos de dizer ‘não’ a uma pessoa que se candidata a um cão de assistência. Um cão de assistência pode transformar muitas vidas, mas não é a resposta adequada para todas as situações. Cada candidatura é cuidadosamente avaliada para garantir que esta parceria será verdadeiramente benéfica, tanto para a pessoa como para o cão.”

Precisamente por nem todas as situações serem iguais, a ÂNIMAS educa cães de assistência de forma individualizada. Actualmente, a ÂNIMAS forma cães para apoiar pessoas com incapacidades motoras em tarefas do quotidiano, como apanhar objectos, abrir portas ou acender luzes. Forma também cães para pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo, nomeadamente para apoio à segurança e à regulação emocional, e cães para pessoas surdas, treinados para alertar para sons como campainhas, alarmes ou chamamentos. A associação trabalha ainda com cães preparados para situações de alerta relacionadas com epilepsia e stress pós-traumático, sempre mediante uma avaliação técnica das necessidades da pessoa e clínica. A formação de cães-guia para pessoas com deficiência visual não é desenvolvida pela ÂNIMAS, sendo assegurada em Portugal pela Escola de Cães-Guia.

Uma das questões que surge com frequência é se um cão de companhia pode vir a ser um cão de assistência. A possibilidade existe, mas depende de uma avaliação comportamental e clínica rigorosa. Nem todos os cães reúnem as características necessárias para este trabalho, pelo que a equipa técnica avalia o perfil de cada animal antes de decidir se reúne condições para iniciar o processo de formação.

Adicionalmente, a ÂNIMAS desenvolve uma outra vertente fundamental: os Serviços Assistidos por Animais (SAA). Trata-se de uma área de intervenção igualmente acreditada pela Animal Assisted Interventions – International (AAII) e pela International Association of Human-Animal Interaction Organizations (IAHAIO) que, nos últimos quatro anos, tem registado um crescimento exponencial na atividade da associação, uma evolução que traduz o reconhecimento crescente do papel destes parceiros de quatro patas no bem-estar comunitário. Através de duplas devidamente certificadas (compostas por um técnico e um cão), a instituição intervém ativamente em hospitais (do internamento pediátrico aos Cuidados Intensivos), escolas, lares de idosos e estruturas de apoio à deficiência. Nestes contextos, o contacto guiado com o animal serve de ponte para atingir objetivos concretos de reabilitação física, estímulo cognitivo, autorregulação emocional e socialização, entre outros.

O rigor no treino e o perfil da equipa

Garantir cães com comportamento irrepreensível exige uma equipa técnica de excelência, uma vez que o treino de um cão de assistência não se improvisa. “Ter treinadores que se adequem às exigências de trabalhar um cão para uma pessoa com incapacidade não é algo que se consiga num workshop de fim de semana. É necessária formação específica e um carácter excecional”, adverte o dirigente.

O processo de formação de um treinador na ÂNIMAS inicia-se com o Curso para Duplas em Serviços Assistidos por Animais. Posteriormente, após seleção por convite, os candidatos realizam um ano de formação prática e voluntária com um cão, um percurso de elevada exigência em que a maioria fica pelo caminho. A equipa responsável é coordenada por António Correia Neves (Xico) e composta por Abílio Leite, Adão Lima, Sandra Almeida (também responsável pelos acoplamentos e formadora), Adriana Oliveira e Fátima Lopes. O ciclo de preparação do animal decorre de forma estruturada:

  • Até ao 1.º Ano: O cão passa pelo período de sociabilização e integração em variados contextos sociais (“dar mundo”) e é integrado numa família de acolhimento;
  • Entre os 12 e os 18 meses: O treinador assume o cão para trabalhar a educação e a obediência de base;
  • Último semestre de treino: O cão é trabalhado para responder às necessidades específicas do beneficiário que o irá receber;
  • Acoplamento e Transição: O cão (habitualmente já com mais de dois anos) é integrado gradualmente com o tutor.

Os cães de assistência da ÂNIMAS são entregues aos beneficiários sem qualquer custo. Contudo, a formação de cada cão representa um investimento de cerca de 25 mil euros para a associação, valor suportado por doações e pelo empenho da equipa. Legalmente, o cão continua a pertencer à ÂNIMAS, celebrando-se um contrato de comodato. A fase de acoplamento e o acompanhamento posterior cumprem critérios rigorosos para garantir a plena adaptação da dupla. A salvaguarda do bem-estar animal é uma prioridade absoluta prevista no contrato, sendo a simples suspeita de negligência motivo suficiente para a remoção do cão, embora, até hoje, nunca se tenha registado qualquer situação de incumprimento.

Enquadramento legal e direito à acessibilidade

Em Portugal, a lei reconhece o cão de assistência como uma ferramenta técnica para a pessoa com incapacidade, o que significa que, na prática, onde pode entrar uma cadeira de rodas pode também entrar o beneficiário acompanhado pelo seu cão, excluindo-se apenas locais onde o animal não possa exercer a sua função, como blocos operatórios. No entanto, para garantir o livre acesso aos espaços públicos e privados de uso público, o tutor deve apresentar o cartão digital de identificação do cão de assistência, o boletim de vacinas atualizado e o seguro de responsabilidade civil.

Apesar do enquadramento legal, a associação reforça que ainda há um caminho a percorrer na sensibilização da sociedade, nomeadamente junto de empresas de segurança privada, táxis e plataformas TVDE, para uma maior compreensão das incapacidades invisíveis.

Da exigência internacional à autonomia no dia a dia

A acreditação pela Assistance Dogs International (ADI) coloca a ÂNIMAS num patamar de exigência e credibilidade mundial. “Este selo de qualidade exige uma contínua melhoria da nossa capacidade de trabalho e de fazer melhor, cada dia, pelas pessoas com diversidade funcional que nos solicitam um dos nossos cães. As sessões de auditoria são sempre stressantes, mas tudo é feito em prol da qualidade e transparência de um serviço para pessoas que enfrentam inúmeras dificuldades diariamente”, afirma Abílio Leite.

Esta cultura de exigência é igualmente reiterada por David Locklin, Diretor Executivo da ADI, que sublinha que os padrões internacionais existem para proteger simultaneamente as pessoas e os animais ao longo de todo o ciclo de vida: “Os padrões para cães de assistência são cruciais porque tanto as pessoas como os animais beneficiam de um enquadramento ético e de bem-estar rigoroso. Na ADI, este acompanhamento abrange todo o ciclo de vida do cão, desde a criação, nascimento e desenvolvimento dos cachorros até à sua vida ativa, reforma e cuidados veterinários.”

Desde a autonomia física à presença terapêutica, os cães mudam a dinâmica diária de famílias inteiras. A felicidade com que um beneficiário nos conta como o seu dia a dia melhorou após a chegada do seu parceiro de dupla deixa-nos sempre com umas lágrimas”, partilha Abílio Leite. “Seja a pessoa que nos diz que deixou de ter de chamar alguém para lhe apanhar algo do chão, quem foi alertado para a iminência de uma convulsão, ou uma criança nos Cuidados Intensivos que, sem reação, dá um sorriso de orelha a orelha após fazer uma festinha ao nosso cão… É um trabalho exigente, mas muito gratificante.”

É nesta relação entre a pessoa e o cão que Abílio Leite encontra uma das melhores formas de descrever a missão da associação:

«Um cão de assistência é um anjo, sem asas, de uma pessoa com uma incapacidade.»

Há quase 25 anos que a ÂNIMAS trabalha para que mais pessoas possam contar com este parceiro no seu dia a dia, através da formação e atribuição gratuita de cães de assistência e do desenvolvimento de Serviços Assistidos por Animais.

Sustentabilidade e apoio à missão

Entregar estes cães sem qualquer custo para os beneficiários só é possível graças a uma sólida rede de solidariedade. Sem o apoio continuado de mecenas, o empenho dos voluntários e a consignação do IRS, o trabalho da ÂNIMAS não seria sustentável. Para que mais pessoas com diversidade funcional possam reconquistar a sua autonomia, a sociedade civil e as empresas podem contribuir através dos seguintes meios:

  • Consignação de 1% do IRS: Indicação do NIF 506 119 718 no Quadro 11 (Campo 1101) do Modelo 3 do IRS (um gesto sem qualquer custo para o contribuinte).
  • Donativos Diretos: Através de MB WAY (936 871 283) ou de transferência bancária via IBAN (PT50 0035 0651 00542346930 23).
  • Multas e Legados Solidários: Transformação do valor de coimas em donativos ou inclusão da ÂNIMAS em testamento.
  • Mecenato e Parcerias Empresariais: Apoio institucional através do contacto direto por e-mail: parcerias@animasportugal.org.

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