21 Ago Um Cão de Assistência é um Anjo sem Asas: Abílio Leite e os 25 anos da ÂNIMAS ao Serviço da Autonomia
No mês em que se assinalam o Dia Internacional do Cão de Assistência e o Dia Internacional do Cão, a ÂNIMAS assinala as datas dando a conhecer o trabalho desenvolvido em Portugal na formação e atribuição gratuita de cães de assistência, bem como as histórias das pessoas cuja autonomia é diariamente reforçada por estes parceiros de quatro patas.
Com quase um quarto de século de história, a ÂNIMAS é a primeira e única entidade em Portugal acreditada pela Assistance Dogs International (ADI) para o treino e atribuição de cães de assistência. Até ao final de 2025, a associação entregou gratuitamente 75 cães em todo o território nacional, proporcionando maior autonomia, segurança e qualidade de vida a pessoas com diversidade funcional. Por trás deste trabalho está uma equipa multidisciplinar dedicada, liderada por Abílio Leite.
A paixão pelos cães e o amor pelas pessoas
Abílio Leite define-se, antes de mais, como “um indivíduo que se considera uma pessoa feliz”, casado, pai de dois filhos e rodeado por cães desde a infância. Contudo, como faz questão de sublinhar, a ligação aos animais é apenas uma parte daquilo que representa a missão da associação.
“Desde pequeno que sempre tive uma relação especial com os cães. Mas para estarmos na ÂNIMAS não basta gostar de cães. É preciso compreendê-los, mas, em primeiro lugar, gostar de trabalhar com pessoas e ajudar as pessoas a serem um pouco mais felizes após conhecerem a ÂNIMAS”, afirma o Presidente da instituição.
Gerir uma organização com perto de 25 anos de história representa uma responsabilidade diária. Para o responsável, a longevidade da ÂNIMAS é a prova de que a missão definida pelos fundadores continua viva e exige um compromisso permanente com a qualidade, a ética e a melhoria contínua. Apesar das dezenas de cães entregues e das centenas de pessoas apoiadas ao longo da história da associação, a gestão envolve decisões complexas. Quando confrontado com o momento mais exigente do seu papel, Abílio Leite não hesita: “A maior dificuldade é quando temos de dizer ‘não’ a uma pessoa que se candidata a um cão de assistência. Um cão de assistência pode transformar muitas vidas, mas não é a resposta adequada para todas as situações. Cada candidatura é cuidadosamente avaliada para garantir que esta parceria será verdadeiramente benéfica, tanto para a pessoa como para o cão.”
Respostas à medida de cada necessidade
Precisamente por nem todas as situações serem iguais, a ÂNIMAS educa cães de assistência especificamente preparados para responder às necessidades de cada pessoa de forma individualizada. Atualmente, a associação treina e certifica as seguintes tipologias:
- Cães de Serviço para pessoas com incapacidades motoras: Apoiam pessoas com limitações motoras em tarefas do quotidiano, como apanhar objetos, abrir portas, acender interruptores ou auxiliar em diversas atividades diárias, promovendo maior autonomia.
- Cães de serviço para pessoas com Perturbação do Espetro do Autismo: Contribuem para a segurança, a autorregulação emocional e a participação social de pessoas com Perturbação do Espetro do Autismo.
- Cães para Surdos: Alertam as pessoas para sons importantes, como campainhas, telefones, alarmes ou chamamentos, permitindo uma maior independência.
- Cães de Serviço de alerta para epilepsia e para pessoas com stress pós-traumático: São preparados para responder às necessidades específicas de pessoas com determinadas condições clínicas, como é o caso da epilepsia ou da perturbação de stresse pós-traumático, sempre após uma avaliação técnica e clínica cuidada.
A ÂNIMAS não desenvolve programas de formação de cães-guia para pessoas cegas ou com deficiência visual, uma área assegurada no nosso país pela Escola de Cães Guia.
Paralelamente, surge frequentemente a dúvida sobre a possibilidade de um cão de companhia se tornar um cão de assistência. Abílio Leite esclarece que é possível realizar esse percurso, mediante uma avaliação comportamental e clínica rigorosa por parte da equipa técnica. Nem todos os animais reúnem o perfil e os requisitos específicos exigidos pelos padrões internacionais, mas a associação realiza essa triagem e acompanha o processo de preparação e certificação das duplas elegíveis.
Adicionalmente, a ÂNIMAS desenvolve uma outra vertente fundamental: os Serviços Assistidos por Animais (SAA). Trata-se de uma área de intervenção igualmente acreditada pela Animal Assisted Interventions – International (AAII) e pela International Association of Human-Animal Interaction Organizations (IAHAIO) que, nos últimos quatro anos, tem registado um crescimento exponencial na atividade da associação, uma evolução que traduz o reconhecimento crescente do papel destes parceiros de quatro patas no bem-estar comunitário. Através de duplas devidamente certificadas (compostas por um técnico e um cão), a instituição intervém ativamente em hospitais (do internamento pediátrico aos Cuidados Intensivos), escolas, lares de idosos e estruturas de apoio à deficiência. Nestes contextos, o contacto guiado com o animal serve de ponte para atingir objetivos concretos de reabilitação física, estímulo cognitivo, autorregulação emocional e socialização, entre outros.
Marcas indeléveis: Lágrimas de alegria e sorrisos
Quando se aborda o trabalho da ÂNIMAS, os relatos acumulam-se no quotidiano da equipa. Desde a autonomia física à presença terapêutica, os cães mudam a dinâmica diária de famílias inteiras.
“A felicidade com que um beneficiário nos conta como o seu dia a dia melhorou após a chegada do seu parceiro de dupla deixa-nos sempre com umas lágrimas”, partilha Abílio Leite. “Seja a pessoa que nos diz que deixou de ter de chamar alguém para lhe apanhar algo do chão, quem foi alertado para a iminência de uma convulsão, ou uma criança nos Cuidados Intensivos que, sem reação, dá um sorriso de orelha a orelha após fazer uma festinha ao nosso cão… É um trabalho exigente, mas muito gratificante.”
O rigor no treino e o perfil da equipa
Garantir cães com comportamento irrepreensível exige uma equipa técnica de excelência, uma vez que o treino de um cão de assistência não se improvisa. “Ter treinadores que se adequem às exigências de trabalhar um cão para uma pessoa com incapacidade não é algo que se consiga num workshop de fim de semana. É necessária formação específica e um carácter excecional”, adverte o dirigente.

O processo de formação de um treinador na ÂNIMAS inicia-se com o Curso para Duplas em Serviços Assistidos por Animais. Posteriormente, após seleção por convite, os candidatos realizam um ano de formação prática e voluntária com um cão, um percurso de elevada exigência em que a maioria fica pelo caminho. A equipa responsável é coordenada por António Correia Neves (Xico) e composta por Abílio Leite, Adão Lima, Sandra Almeida (também responsável pelos acoplamentos e formadora), Adriana Oliveira e Fátima Lopes. O ciclo de preparação do animal decorre de forma estruturada:
- Até ao 1.º Ano: O cão passa pelo período de sociabilização e integração em variados contextos sociais (“dar mundo”) e é integrado numa família de acolhimento;
- Entre os 12 e os 18 meses: O treinador assume o cão para trabalhar a educação e a obediência de base;
- Último semestre de treino: O cão é trabalhado para responder às necessidades específicas do beneficiário que o irá receber;
- Acoplamento e Transição: O cão (habitualmente já com mais de dois anos) é integrado gradualmente com o tutor.
Contrato de comodato e salvaguarda do bem-estar animal
Os cães de assistência da ÂNIMAS são entregues aos beneficiários sem qualquer custo. Contudo, a formação de cada cão representa um investimento de cerca de 25 mil euros para a associação, valor suportado por doações e pelo empenho da equipa. Legalmente, o cão continua a pertencer à ÂNIMAS, celebrando-se um contrato de comodato.
A fase de acoplamento e o acompanhamento posterior cumprem critérios rigorosos para garantir a plena adaptação. Do mesmo modo, a salvaguarda do bem-estar animal é uma prioridade absoluta devidamente prevista no contrato. Como sublinha Abílio Leite, a simples suspeita de que o bem-estar do cão esteja em causa é motivo suficiente para a sua remoção, ainda que, até hoje, nunca se tenha registado qualquer situação de comportamento inadequado por parte dos cães entregues.
Enquadramento legal e direito à acessibilidade
Em Portugal, a lei reconhece o cão de assistência como uma ferramenta técnica para uma pessoa com incapacidade. “Onde pode entrar uma cadeira de rodas, também pode entrar o beneficiário acompanhado pelo seu cão de assistência. As únicas exceções são locais onde o cão não possa exercer a sua função, como por exemplo, dentro de uma sala de operações num hospital”, clarifica Abílio Leite.
Para garantir o livre acesso aos espaços públicos e privados de uso público, o tutor deve apresentar:
- Cartão digital de identificação do cão de assistência;
- Boletim de vacinas atualizado;
- Seguro de responsabilidade civil.
O Presidente da ÂNIMAS lembra, contudo, que ainda há um caminho a percorrer na sensibilização da sociedade, nomeadamente junto de empresas de segurança privada, táxis e plataformas TVDE, reforçando a importância de compreender as incapacidades invisíveis.
O selo ADI e a exigência internacional
A acreditação pela Assistance Dogs International (ADI) coloca a ÂNIMAS num patamar de exigência e credibilidade mundial. “Este selo de qualidade exige uma contínua melhoria da nossa capacidade de trabalho e de fazer melhor, cada dia, pelas pessoas com diversidade funcional que nos solicitam um dos nossos cães. As sessões de auditoria são sempre stressantes, mas tudo é feito em prol da qualidade e transparência de um serviço para pessoas que enfrentam inúmeras dificuldades diariamente”, afirma Abílio Leite.
Esta cultura de exigência é igualmente reiterada por David Locklin, Diretor Executivo da ADI, que sublinha que os padrões internacionais existem para proteger simultaneamente as pessoas e os animais ao longo de todo o ciclo de vida: “Os padrões para cães de assistência são cruciais porque tanto as pessoas como os animais beneficiam de um enquadramento ético e de bem-estar rigoroso. Na ADI, este acompanhamento abrange todo o ciclo de vida do cão, desde a criação, nascimento e desenvolvimento dos cachorros até à sua vida ativa, reforma e cuidados veterinários.”
A mensagem essencial da ÂNIMAS resume-se, assim, na afirmação de Abílio Leite: “Um cão de assistência é um anjo, sem asas, de uma pessoa com uma incapacidade.” Mais do que um animal treinado, cada cão representa autonomia, segurança e dignidade, um compromisso que, há quase 25 anos, continua a orientar a missão da ÂNIMAS.
Sustentabilidade e apoio à missão
Quando questionado sobre como é suportado este trabalho de elevada exigência e custos acrescidos, Abílio Leite é perentório ao reconhecer que a gratuitidade da entrega só é viável graças a uma rede sólida de solidariedade: sem o apoio continuado de mecenas, o empenho dos voluntários e a adesão às campanhas de consignação do IRS, nada disto seria possível. Para garantir que mais pessoas com diversidade funcional possam ter acesso a um cão de assistência e reconquistar a sua autonomia, a sociedade civil e o tecido empresarial podem contribuir ativamente através dos seguintes meios:
- Consignação de 1% do IRS: Indicação do NIF 506 119 718 no Quadro 11 (Campo 1101) do Modelo 3 do IRS (um gesto sem qualquer custo para o contribuinte).
- Donativos Diretos: Através de MB WAY (936 871 283) ou de transferência bancária via IBAN (PT50 0035 0651 00542346930 23).
- Multas e Legados Solidários: Transformação do valor de coimas em donativos ou inclusão da ÂNIMAS em testamento.
- Mecenato e Parcerias Empresariais: Apoio institucional através do contacto direto por e-mail:
parcerias@animasportugal.org.


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