03 Ago “O Amor Vence a Lágrima”: O Quotidiano de Sandra Almeida no Treino de Cães de Assistência da ÂNIMAS
O Amor Vence a Lágrima”: O Quotidiano de Sandra Almeida no Treino de Cães de Assistência da ÂNIMAS
No âmbito da campanha global #BetterTogether, que assinala a Semana Internacional do Cão de Assistência (International Assistance Dog Week – IADW), de 2 a 8 de agosto de 2026, o mundo volta a sua atenção para a importância dos cães de assistência na melhoria da qualidade de vida das pessoas com diversidade funcional.
Treinados para responder às necessidades específicas de cada beneficiário, os cães de assistência promovem uma maior autonomia, segurança, inclusão e participação na sociedade, permitindo que milhares de pessoas vivam o seu dia a dia com mais confiança e independência.
Em Portugal, este selo de excelência tem uma casa de referência. No treino de cães de assistência há regras, etapas rigorosas e certificações exigentes – e a ÂNIMAS é, aliás, a primeira e única entidade em Portugal acreditada pela ADI. Mas se perguntarem à Sandra Almeida – família de acolhimento, treinadora e responsável pelos acoplamentos na associação, ela resume todo este trabalho a uma palavra simples: amor.
“A Laia não me deixava sair de casa…”
A história da Sandra com os cães não começou com manuais de treino. Começou com a Laia, uma Pastora Australiana que “mordiscava as costas e bloqueava-me a passagem para controlar todos os meus movimentos, como se achasse que eu era do rebanho dela”. “Andei com ela numa escola de treino, tinha contratado um treinador e nada”. Foi nessa procura desesperada de ajuda que encontrou o Abílio Leite e a ÂNIMAS. E bastou uma primeira visita: “Abílio chegou lá e só me disse assim: ‘Faça como faz todos os dias ao sair de casa’. Peguei na mala, no casaco… Só sei dizer que em 15 minutos eu fiquei com outra cadela. Nunca mais a Laia voltou a fazer tal coisa, nunca mais!”
Pouco depois, a Sandra adotou o Tysan, um cão que estava num abrigo e que começou a demonstrar reatividade e agressividade. O Abílio voltou a intervir: “Esteve uma hora e 24 minutos agarrado ao Tysan, e o cão não largava”. Mas semana a semana, com “deveres de casa” e orientação contínua da ÂNIMAS, o cão foi melhorando. E a Sandra? Foi-se apaixonando. “Chegou a um ponto em que o Abílio disse que já não precisava da ajuda dele, que eu estava a treinar bem o cão. Eu ainda não tinha experiência nenhuma, simplesmente amava cães. Mas quando vi o Tysan a evoluir pensei: ‘Eu posso ajudar um cão a ficar mais equilibrado, mais calmo!’.”
Veio o convite para ser família de acolhimento do Fly, o curso de duplas Serviços Assistidos por Animais, a formação de treino de cães de assistência da ÂNIMAS e uma paixão que “não consegue explicar”. A partir daí, não parou mais: vieram o Wally, o Hino, o Iscas, o Hobi, o Jolly…e tantos outros.
O Processo de Treino: Do “Dar Mundo” à Afinagem Específica
Como é que um cão se transforma num cão de assistência? O processo dura entre um ano e meio a três anos, mas a regra de ouro é só uma: o cão tem de ser feliz.
1. O Primeiro Ano: “Dar Mundo”
Quando o cão sai da mãe (por volta dos 3 meses), vai para a casa da família de acolhimento, ou, no caso da Sandra, acolhe-os logo com 3 meses para acompanhar o processo todo. A prioridade absoluta é dar mundo ao cão: “Dar mundo é apresentar pessoas, outros animais, barulhos… é um tudo! A partir dos 3 meses ou 6 meses e meio vem o treino de obediência base e depois o treino técnico, que inclui as ‘habilidades’: abrir e fechar portas, abrir o frigorífico, ir buscar as chaves ou apanhá-las do chão, acender e apagar luzes. Todos os cães de assistência passam por isto – é a base de todo o trabalho.”
O mais importante é que a aprendizagem seja feita sem massacrar o animal: “Treino diário de uma hora seguida era massacrar o cão! Não é o nosso objetivo enjoar o cão. Se vou ao Continente fazer as minhas compras, levo o cão. Ali estou a fazer compras, mas estou a ensinar: peço-lhe uma garrafa da prateleira de baixo, ensino a andar bem à trela, a passar pela carne, pelo peixe e a ignorar tudo. O treino é fracionado ao longo das 24 horas.”
2. A Afinagem para a Diversidade Funcional
Só na fase final, antes da entrega, é que se faz o treino específico de afinagem para aquele beneficiário: “Se for um cadeirante, afino o cão para apanhar objetos do chão e entregar-lhos; se for para uma pessoa surda, afino para os sinais sonoros. O treino global está feito, eu só vou afinar para a necessidade exata de quem o vai receber.”
O Treino para o Espectro do Autismo
“Para uma criança ou adulto no espectro do autismo, o treino começa logo na escolha do cão: tem de ser um cão extraordinariamente calmo e apaziguador. Onde há episódios de grande ansiedade ou stresse traumático, a simples presença e o contacto físico com um cão calmo apaziguam imenso. O cão tem o poder de reduzir drasticamente as crises. passarem de diárias para episódios muito mais raros.”
Deteção de Crises de Epilepsia: Como Funciona?
O treino de resposta à epilepsia é uma das vertentes mais impressionantes do trabalho da ÂNIMAS:
- A Recolha do Odor: A família envia compressas com gotas de suor recolhidas no momento exato da crise, e outras em estado normal.
- A Associação: ao odor Dá-se ao cão a cheirar as várias compressas. Quando aproxima o focinho no cheiro da crise o treinador clica (clicker) e recompensa, fazendo o cão memorizar aquele odor.
- A Reação: No dia a dia, ao sentir esse cheiro, o cão avisa o utente com a pata para ele se sentar. Se a pessoa cair, o cão vai buscar a carteira com a medicação, coloca-a ao lado e deita-se em cima do utente a fazer pressão para o acalmar até a crise passar.
O Reforço Positivo e os Cães que “Chumbam”: O Caso do Iscas
Existe a perceção errada de que um cão de assistência está constantemente a “trabalhar”, mas a Sandra desmistifica:
“Um cão de assistência, para aprender com carinho, tem de ser feliz! Quando eu coloco o colete, ele sabe que está a trabalhar. Tiro-lhe o colete, é um cão normal de casa: brinca, corre e diverte-se. Eles são treinados unicamente com reforço positivo, por isso ‘trabalhar’ para eles é algo normal e prazeroso.”
Apesar de ter treinado vários cães com sucesso, a Sandra explica que nem todos conseguem chegar ao fim. Para passar, o cão precisa de ter 100% de autocontrolo:
“O Iscas chumbou por ser simpático demais! Era um cão fantástico, que fazia tudo e adorava trabalhar, mas se visse uma pessoa passar na rua queria ir dizer ‘bom dia’. Por mais treino que tenha levado para aprender a ignorar, ele não conseguia resistir – queria ir ter com a pessoa ou com outro cão. Uma pessoa numa cadeira de rodas com o Iscas ao lado não se ia sentir segura. Na ÂNIMAS temos esse cuidado extremo: se o cão se distrai, chumba. Garantimos que os cães entregues estão 100% funcionais.”
O Segredo dos Labradores e a Magia do Acoplamento
A maior parte dos cães de assistência são Labradores. Segundo Sandra, este tipo de raça tem uma personalidade dócil e características excecionalmente favoráveis para desempenhar esta função, mas a verdade é que também existe uma razão muito simples e curiosa – para esta escolha: “O Labrador é muito guloso! Criamos um vínculo com o cão durante um ano ou dois, mas depois ele adapta-se bem com a separação: basta o beneficiário começar a dar-lhe comida! Começam a dar-lhe uma salsichinha de frango e… esquece! Ele vai com a comida toda!”
A fase de acoplamento (que demora de um a três meses) é o momento em que o cão passa da treinadora para o beneficiário. Quando perguntam à Sandra se não fica triste por entregar um cão que acolheu e treinou tanto tempo, a resposta é imediata e emotiva:
“É uma sensação maravilhosa, um orgulho imenso dizer que aquele ser de quatro patas vai ajudar alguém graças ao treino que recebeu. Há um bocadinho de nostalgia, claro, cria-se um vínculo e gestos diários, mas eu digo sempre: o amor vence a lágrima. A maior alegria para mim é voltar as costas e ele não vir atrás de mim! Ficar com o beneficiário. Isso é a cereja no topo do bolo.”
O Caso da Carolina e do Goldy
“Marcou-me muito a Carolina e o Goldy. A Carolina tinha 4 anos e meio, anda de cadeirinha de rodas e era uma menina muito tímida, tinha vergonha de pedir ajuda na escola quando o lápis caía ou para abrir a porta. Hoje em dia é a menina mais feliz do mundo! Diz que tem um ‘cão super-herói’. O lápis cai, o Goldy apanha. Precisa de abrir a porta, o Goldy vai e abre. Dormem juntos, são a Dupla Maravilha.”

“Os cães ensinaram-me tudo…”
Sandra destaca a mudança profunda de autonomia na vida dos beneficiários: “Para um cadeirante que antes tinha de pedir ajuda para tudo, ver o cão ir buscar uma garrafa de água e entregar-lha dá-lhe uma independência enorme. Para nós pode parecer um gesto pequeno, mas para estas pessoas significa tudo.”
Não esconde a gratidão pelos animais e pelos seus mentores: “Devo muito aos cães, mas devo muito ao Abílio por ter confiado em mim, por ter visto o meu potencial. Ao Xico, também o meu mestre. Um cão ensina-nos tanta coisa: ensinou-me paciência, resiliência, consistência, persistência e o mais importante de tudo: o amor e a partilha.”
Para acompanhar de perto este trabalho, não perca, de quinze em quinze dias, à quinta-feira, a nossa nova rubrica sobre cães de assistência no Instagram da ÂNIMAS.
Venha conhecer os bastidores do trabalho desenvolvido pela Sandra e acompanhar a evolução dos três protagonistas desta jornada: o Jolly, que iniciou recentemente a fase de acoplamento com a sua futura família (e vamos contar-lhe tudo sobre este momento tão importante!); o Hoby, que continua o seu percurso de treino; e o Lotus, o mais recente futuro cão de assistência da ÂNIMAS, que acaba de dar os primeiros passos nesta extraordinária aventura.

Sobre a ÂNIMAS e a Certificação ADI
Fundada em 2002, a ÂNIMAS é uma IPSS e Associação de Utilidade Pública dedicada a capacitar pessoas com diversidade funcional através do apoio de cães de assistência e de serviços assistidos por animais. Atuamos em três áreas principais: a cedência gratuita de cães de assistência, a dinamização de programas de serviços assistidos por animais em escolas, hospitais e comunidades, e a formação e investigação científica.
A excelência e a ética do nosso trabalho são reconhecidas internacionalmente. Na área dos Cães de Assistência, somos acreditados pela Assistance Dogs International (ADI) e pela Assistance Dogs Europe (ADEu); nas Intervenções Assistidas por Animais, contamos com a credenciação da Animal Assisted Interventions International (AAI-Int) e da IAHAIO.


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