Candy, Balzac e Mira ao serviço de crianças com deficiência

Candy, Balzac e Mira ao serviço de crianças com deficiência

A ÂNIMAS eleva para 35 o número de cães de assistência que treinou para adultos e crianças com deficiência. Balzac está ao serviço de Gustavo, Mira ao serviço de Victor, Candy ao serviço de Leonor. O Dia Internacional das Pessoas com Deficiência assinala-se a 3 de Dezembro.

Leonor soltou gritos agudos ao ver a cadela à porta. A alegria era tanta que se tornava difícil perceber tudo o que ela estava a dizer. “Ó Candy! Ó Candy!”. Nem sabia se havia de lhe fazer festinhas, se havia de abraçá-la, se havia de passeá-la. “Ela pode entrar dentro da sala?

“Mãeeeeeeeeee!” Queria mostrá-la aos quatro companheiros da sala do ensino inclusivo. Não é uma cadela vulgar esta que assim se apresentou na Escola Básica Marques Leitão, na freguesia de Valbom, no concelho de Gondomar. É uma cadela de assistência treinada por António Correia Neves, um educador de cães que faz voluntariado na associação particular de solidariedade social Ânimas, entidade que em Portugal pode certificar cães de assistência. O andarilho azul destacava-se no corredor de tons pálidos, mesmo ao lado da porta da sala. Leonor desloca-se com dificuldade. Nasceu prematura, com atresia esofágica. No primeiro dia de vida, foi operada. Por um momento, o oxigénio não lhe chegou ao cérebro. E esse momento deixou-a com sequelas para sempre. Ficou com paralisia cerebral.

Ela percebe tudo o que dizemos”,

afiançou a mãe, Sílvia Lopes, de 34 anos, menos um do que o marido, mais 22 do que as duas filhas gémeas. “Consegue socializar normalmente, mas tem muitas dificuldades de aprendizagem. Tem óptima memória auditiva, mas péssima memória visual. Não consegue aprender a ler e a escrever. Se dissermos um ‘p’ e um ‘a’, ela sabe que é ‘pa’. Se mostrarmos um ‘p’ e um ‘a’, ela tem dificuldade em ler.” O andarilho fica na escola. Em casa, Leonor anda ou gatinha. Se a família tiver de ir a algum sítio, serve-se de uma cadeira de rodas. A esperança da mãe era Candy fazê-la esquecer-se do cansaço, treinar a marcha, ganhar resistência. “Se for com a Candy, pode ter mais vontade de andar, pode ter aquela vaidade.” O terapeuta que a apoia também contava com isso. Naquela manhã de Setembro, Candy entrou pela primeira vez em casa de Leonor. E Leonor não parou, quis mostrar-lhe todos os cantos. “Candy! Ó Candy!” Sílvia já as imaginava em cada manhã: Leonor a segurar-se no arnês de Candy e a dar os passos necessários, em vez de se atirar da cama para o chão e gatinhar até à casa de banho, como gostava de fazer.

Grande missão, a de Candy. Além de espantar a preguiça de Leonor, teria de trazer-lhe algum conforto emocional. Nem sempre é fácil lidar com a sua revolta. A irmã gémea, Letícia, não tem qualquer incapacidade. Vê-la fazer tudo é ver tudo o que ela não pode fazer. “Queremos que ela sinta que nem tudo é mau. Ela tem direito a um cão de assistência, a um amigo especial, e a irmã não…”

Leonor continuava a andar pela casa com a cadela, sob o olhar atento do treinador, mais conhecido por Chico, que lhe ia explicando como falar com o bicho, como não o confundir. Candy estava quase pronta para entrar ao serviço. Um grande caminho percorrera até chegar àquele estádio. “A gente nem lhe pode fazer uma festinha”, comentara Chico ainda em Janeiro. “Todos têm a sua personalidade. E esta é uma cadela feliz, que aprende bem, mas tudo a grande rotação!” No pico do Verão, no campo, já não falhava: “Direita”, “esquerda”, “senta”, “deita”. Pelo que Chico estava a ver naquela manhã, só tinha de a ensinar a “andar mais direitinha”. Havia de voltar a trazê-la dali a pouco, para passar a tarde com a família, já sem ele por perto. Era o início do chamado “acoplamento”, a fase em que, gradualmente, pessoa e cão se conhecem.

Não coloquei na cabeça que o `{`cão`}` Balzac ia salvar o meu filho. Se o ajudar a desenvolver-se mais um por cento, óptimo. Um por cento aqui, um por cento acolá, tudo contribui”

diz Sónia Oliveira, mãe de Gustavo.

Voluntariado e mecenato

Não é um negócio. A ÂNIMAS – Associação Portuguesa para a Intervenção com Animais de Ajuda Social cede os animais gratuitamente a pessoas que deles carecem para serem mais autónomas, mais funcionais. Pode ser uma pessoa com deficiências motoras que precisa que o cão lhe apanhe objectos do chão ou acenda luzes, uma pessoa surda que precisa que a alerte para o toque de uma campainha ou o choro de um bebé, uma criança com síndrome de autismo que precisa de ganhar mais competências sociais.

Para que isso seja possível, há toda uma cadeia de solidariedade. Os cães são doados à ÂNIMAS por criadores. Famílias de acolhimento, voluntárias, cuidam deles durante seis a 12 meses. Os instrutores, também voluntários, treinam-nos durante outros dez a 12. Os encargos com alimentação e saúde são suportados por mecenas e donativos deduzidos à colecta de IRS.

Ao que conta Abílio Leite, presidente da ÂNIMAS, na origem desta história está um grupo de profissionais. Liliana de Sousa, professora do Instituto de Ciências Abel Salazar especializada em Comportamento Animal, criou um grupo de trabalho. Em 2002, um curso de Treinador foi ministrado por um formador da Fundação Bocalán, em Espanha, entidade que um ano antes começara a treinar animais recorrendo a procedimentos mais científicos e respeitadores das suas capacidades de aprendizagem. Terminado o curso, alguns decidiram criar a associação. Liliana de Sousa foi a primeira presidente.

A associação envolve técnicos de saúde, psicólogos, médicos, médicos veterinários, professores universitários, instrutores de cães de assistência. Promove actividades assistidas por animais (em contexto institucional, como forma de bem-estar), terapia assistida por animais (intervenção realizada por profissionais de saúde que incorpora o animal no processo terapêutico) e treina cães de assistência.

Até 2017, um total de 12 cães de assistência foram acolhidos por 12 pessoas. Daí para cá, “com mais apoio, outra organização”, o ritmo acelerou. Em 2018, sete. Em 2019, outros sete. Este ano, nove.

Há uma história que correu mal: um cão era muito hábil, mas nem sempre tinha comportamento adequado em público, rosnava. Após uma tentativa de reeducação, foi desclassificado, conta Abílio Leite. A pessoa que o recebeu continua a viver com ele, mas a pessoa que o treinou foi dispensada pela associação. Esse não é assunto de que goste de falar. Não quer pôr em causa a reputação da Ânimas, associada da Assistant Dogs International, que reúne todas as organizações sem fins lucrativos do mundo no sector da formação de cães. Pede a devolução do colete identificativo, espécie de passaporte que permite entrar em qualquer lado. O meio já foi abalado pelo fundador da Associação Portuguesa de Cães de Assistência, em 2018 acusado de burla por dezenas de famílias de todo o país, a quem cobrou avultadas verbas por cães nunca treinados.

No próximo ano, serão entregues pelo menos cinco cães de assistência. Chico conta entregar dois e os outros três treinadores entregarão pelo menos um cada um. “O Chico é o mestre, a referência, o coordenador dos cães de assistência”, diz Abílio Leite.

O treinador-estrela

A “mania dos cães” vem-lhe da infância. Chico cresceu numa quinta, numa parte alta do Funchal. A família tinha um cão, vários coelhos, outras tantas galinhas. Aos nove anos, mudou-se para um apartamento, em Lisboa, e foi avisado de que não havia espaço para tanto bicho. Um desgosto, aquilo. Cuidou de um hamster e de um par de periquitos, sem deixar de pedir um cão. Só quando a cunhada recebeu uma cadela de que não podia cuidar, viu o seu desejo satisfeito. Chamava-se Migalhas. Era uma dachshund, a que muitos chamam “cão-salsicha”. “Tinha um feitio terrível”, recorda. Chico ia nos 16 anos. Pôs-se a educá-la. “As novidades causavam furor na família…”

Quando um tio comprou um são-bernardo, também tratou de o educar. Não foi preciso mais. Tornou-se o educador de cães da família. Ensinava-os “a serem simpáticos” e “a fazerem duas ou três habilidades”. Todo satisfeito, levava-os a exposições de cães. Foi este gosto que o conduziu ao curso de Engenharia Zootécnica, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). Ninguém se surpreenderá ao ouvi-lo dizer: “O meu sonho era ter a minha quinta e os meus animais.” Ainda trabalhou na Purina, na Associação de Criadores de Marnês e na UTAD antes de montar um centro hípico.

“Tinha amigos que entravam em exposições e que iam lá aos cavalos e viam os meus cães: ‘Ah, eu vou trazer o meu cão, que o meu cão tem um problema assim ou assado’.” Quando deram por ela, Chico e a nova companheira, Teresa Martins, veterinária de formação, estavam a hospedar cães. Quem o ouve falar nisso conclui que aconteceu tudo mais ao menos por acaso. “As pessoas iam de férias, nós ficávamos, tínhamos os cavalos. Fomos fazendo canis, mas sempre a trabalhar muito com os cavalos.” Essa parte também crescia. “Eu tinha um sítio e duas éguas e um amigo disse: “Ah, se tu quiseres, eu ponho aí o meu cavalo…” Aceitou um, dois, três, quatro, seis, sete. Ia com os cavalos à Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental e levava alguns cães. Queria que se habituassem a estar com pessoas diferentes. Enquanto esperavam a vez para montar, rapazes e raparigas podiam entreter-se a brincar com eles. Faziam-lhes festas, formavam arcos com as pernas para que eles pudessem passar, atiravam uma bola e esperavam que os cães a fossem buscar. Ao ver aquilo, a terapeuta ficou com vontade de fazer intervenção terapêutica assistida por cães.

Naquela altura, a Ânimas estava a nascer. Chico ainda ouviu falar no primeiro curso para treinadores de cães de assistência dado pelo treinador da Fundação Bocalán que viria de propósito de Madrid ao Porto aos fins-de-semana. Não conseguia integrá-lo. “Aos fins-de semana é que eu ganhava o dinheiro com os cavalos. Fiquei com aquilo atravessado…” Apresentou-se mal a Ânimas abriu o primeiro curso de duplas para cães de intervenção, que certifica duplas de cães e pessoas para ir a lares de idosos, centros de dia, centros de actividades ocupacionais, unidades hospitalares, estabelecimentos prisionais.

Em 2004, estava em Madrid a fazer o curso de cães de assistência. Quis entregar o primeiro como cão social, isto é, “um cão bem-educado, mas que não dá para levar a todo o lado”.

“Insegurança. Era o primeiro…” Chamava-se Quira. Seguiu-se a Cuca e essa já foi entregue como cadela de assistência. Desde então, já perdeu a conta aos cães que educou, embora não lhes tenha esquecido os nomes e as manhas. Nos últimos anos, treinou vários cães para crianças com síndrome de autismo, como Gustavo.

 

Balzac e Gustavo

Sete anos tem Gustavo. Quem olha para ele vê um rapaz franzino a atirar uma bola colorida a um labrador. Já aconteceu, numa praia concessionada, alguém chamar a Autoridade Marítima, por haver um cão no areal. “Não vêem a de􀃆ciência”, suspira a mãe, Sónia Oliveira. “O Balzac anda identificado. Claro que já nos questionaram, mas questionar é normal. Se não sabem, podem perguntar…” – sobre o cão. A família não tem de andar a explicar a desconhecidos que o filho tem perturbação do espectro do autismo… Uma tia-avó é que desconfiou. Aos 20 meses, Gustavo não dizia uma palavra. Abanava repetidamente os braços, como um pássaro. Era impossível mudar-lhe a fralda numa estação de serviço. “Tinha se ser num sítio conhecido.” O neuropediatra confirmou a suspeita. Um outro confirmou o diagnóstico.

Sónia e o marido, Ricardo, tiveram os seus momentos de revolta: “Porquê? Porquê nós?” Acabaram por aceitar. “Por que não nós?” Aos 24 meses, Gustavo estava a iniciar as terapias. “O nosso foco desde então tem sido fazer tudo por tudo para o Gustavo se desenvolver”, diz ela. O mais difícil? “Nunca ouvi a palavra mãe”, responde. “Ao início, nem olhava para nós”, diz ele. “Nós chamávamos e ele nem olhava. Era como se não desse pelo nome. Agora, está diferente. Não tem comparação possível. Mas temos um caminho longo. Isto é um dia de cada vez.”

Procurando cumprir rotinas para lhe proporcionar um ambiente seguro, Ricardo optou pelo trabalho nocturno. Assistem ambos às terapias, o que lhes permite repetir tudo em casa. Ele é mais físico, acompanha mais os exercícios desportivos, ela é mais mental, trabalha mais a postura, os jogos à mesa. Foi o que lhes valeu no confinamento. Esse conhecimento e terem em casa uma sala com baloiço, trampolim, colchão eléctrico, uma autêntica sala de terapias. Balzac encaixa nesta busca permanente de estratégias para o ajudar. Nem sabiam que havia cães treinados para estar ao serviço de crianças com autismo. Ao deparar-se com a Ânimas, Sónia escreveu a perguntar: “Se comprasse um cão, podiam treiná-lo?” Abílio explicou-lhe que não trabalhavam assim. Recomendou-lhe que candidatasse Gustavo a um cão de assistência.

O que descreve é um processo de adopção. “Fiz a candidatura em Abril de 2018. Justifiquei. Anexei os relatórios médicos. Contactaram-me em Fevereiro de 2019. Fomos a uma entrevista. Estavam duas psicólogas e dois treinadores de cães. Estava uma cadela de intervenção. O Gustavo começou logo a interagir com ela.” Avaliação positiva, família seleccionada. Só faltava encontrar o cão adequado. Uma técnica ainda fez duas visitas a casa, uma vez com um cão, outra vez com outro. Um belo dia, apresentaram-lhes Balzac. “Nós adorámos o Balzac. O Gustavo começou a brincar com ele.” Conviveram umas horas, conviveram um dia, conviveram um fim-de-semana. “O treinador também tem de sentir que o cão está bem…” O cão mudou-se lá para casa no dia 20 de Julho daquele ano. Sónia domou as suas expectativas. “Não coloquei na cabeça que o Balzac ia salvar o meu filho. Se o ajudar a desenvolver-se mais um por cento, óptimo. Um por cento aqui, um por cento acolá, tudo contribui.” Está satisfeita. “O Balzac contribui para o bem-estar do Gustavo, interage com ele. Ele dá-lhe beijinhos.” Houve acertos, como é costume. No princípio, estavam ambos na cama a dormir, Gustavo empurrou Balzac e este rosnou. Os pais ficaram atrapalhados. “É proibido rosnar seja a quem for”, advertiu Chico. “Você tinha que dar um berro ao cão, de o pôr a mexer, de zangar-se a sério. Ninguém toca no Gustavo. O cão tem que perceber que o Gustavo é sagrado, está a perceber?” Não vão juntos para a escola. Gustavo não é verbal, usa um sistema de comunicação alternativa, com pequenas figuras. E Balzac está treinado para reagir à fala. A mãe deixa Gustavo na escola e segue com Balzac para o trabalho. Tirando aquelas horas, estão sempre juntos – em casa, no parque, na praia. Criaram novas rotinas. “O Gustavo dá-lhe de comer. O Balzac sabe que come depois do Gustavo.” Sónia nota diferenças, até nela e no marido. “Deixámos de olhar para o autismo 24 horas por dia. O Gustavo é filho único e não gosta de estar sozinho. O Balzac veio ajudar-nos. Ela agora tem outro foco.” Isso liberta-os para outras tarefas. Até as brincadeiras mudaram. Eram todas feitas em função das terapias. Agora, não. Agora, há brincadeiras que são só diversão.

 

Os treinos

Ouve-se latir ao chegar à quinta, no concelho de Sabrosa, no distrito de Vila Real. Nas férias de Verão, podem estar dezenas de cães nos canis, primeiro edifício que encontra quem chega. Na casa térrea habitada por Chico e Teresa pode estar uma dezena, os da casa e os que ele está a treinar. “Não se nota”, regozija-se Chico, afundando-se no sofá. “Entra-se em casa e não há futebol. Já correram, já saltaram… Damos um passeio grande. Às vezes, pedem um bocadinho de mimo, a gente dá um bocadinho de mimo e ficam sossegadinhos.” Não dá para escolher os cães que treina para prestar assistência. “Tinham que ser escolhidos, há uns testes todos XPTO, mas não são escolhidos”, diz. “Há alguém que tem um labrador e quer dar o labrador. A Ânimas quer? Queremos, venha o labrador. Depois, a gente tem que trabalhar com o que há.” Na arte de educar canídeos, ajuda ter ovelhas. Vários cães acompanham-no na ida para o pasto e no regresso. “Uma pessoa chega ali, vê as ovelhas e a gente diz ao cão: ‘À direita!’ E ele vai por este lado, põe-se atrás das ovelhas para as trazer.” Leva-os para todo o lado. Têm de se habituar a ir a qualquer lado e a passar despercebidos. Podem frequentar transportes públicos, cinemas, teatros, restaurantes, centros comerciais, hospitais e outros serviços públicos. Não se coíbe de lhes levantar a voz ou de lhes dar uma sapatada. “Os cães têm que perceber que é proibido morder e rosnar. Se o cão não está confortável, levanta-se ou vai-se embora e põe-se num sítio onde o miúdo não chegue. Também é preciso controlar o miúdo para o miúdo não chatear o cão, não é? Não é para saltar em cima do cão, puxar as orelhas, nada disso.” Prepara os para receber muitos mimos. “Têm de se preparar para depois não ficarem afiitos”, salienta. “Muita gente diz-me: ‘O meu cão não gosta de festas.’ Não gosta porque você não faz! Faça festas, agarre-o e apalpe-o, ele vai estrebuchar. No dia seguinte, agarre-o e apalpe-o e ele vai-se embora outra vez. A certa altura, ele já virá ao pé de si: ‘Então, hoje não me apalpas?’ Porque eles gostam disto, mas, se ninguém fizer, não sabem o que é, a mãe deles não andou a abraçar e a fazer festinhas. Nunca provaram, não vão pedir…” Os primeiros cães treinados para crianças com perturbação do espectro do autismo eram uma espécie de cães-âncora. Subjacente, explica Chico, estava um dos maiores terrores parentais: “O miúdo autista larga a mão do pai no meio da rua e desata a correr, a fugir; estando amarrado ao cão, o cão senta-se e ele pára”. Estando a criança atrelada ao cão, o adulto podia ficar descansado. “Cá não querem, porque o miúdo vai preso ao cão e socialmente parece mal: ‘Agora leva o miúdo preso ao cão, onde é que já se viu? Então o cão vai-se embora e arrasta o miúdo?!…’ É ao contrário, mas as pessoas não sabem e põem-se logo a falar. Então, os pais dizem que não precisam.” Muitas vezes perguntam-lhe se não tem pena de entregar os cães, depois de um ano ou mais com eles. “O cão está aqui, vive aqui connosco. Está claro que tenho pena de entregar o cão, mas, quer dizer, não há coisa que me dê mais alegria do que ver estas pessoas com o cão, não é? Tratam melhor do cão do que eu trato, porque têm muito mais tempo disponível para o cão do que eu tenho. Eu tenho de distribuir o meu tempo por este e mais não sei quantos…”, diz. Teresa não vai com ele entregar cão algum. Nem se despede. E chora. Chora sempre. Do outro lado também se chora, mas de alegria.

Eles têm uma ligação forte. Se o Victor se sente ameaçado, ele procura: ‘Mamãe, Mira.’ Chama para junto dele. Para ele, a Mira significa segurança``.

Elizabeth Deschauer, mãe de Victor

Mira e Victor

Victor conta oito anos e sempre viveu com uma saúde demasiado periclitante. “Ele não é autista”, esclareceu a mãe, Elizabeth Deschauer, autora do blogue Trajectória Consciente. Tem acidemia metilmalónica com homocistinúria, uma doença rara que provoca anemia megaloblástica, letargia, atraso de crescimento, atraso no desenvolvimento, défice intelectual, convulsões. “Tem hiperatividade. Baixa visão. Tem algumas características autistas, mas não está dentro do espectro. Ele adora pessoas, ele adora comunicar.” Cedo deu sinais de que algo não estava bem. “Ele não queria mamar. Quando conseguia, vomitava. Ficava prostrado.” Ao décimo dia, a temperatura desceu. Entrou em coma. Para obter um diagnóstico rápido no Brasil, havia que “pagar uma boa quantia”. Envolta em “sofrimento e incerteza”, a família pagou. Passaram três anos a tentar garantir-lhe a assistência médica necessária no Brasil, “sempre com dificuldade”. Quando perceberam que em Portugal havia tratamento no Serviço Nacional de Saúde, ganharam novo alento. “Como parte da família do meu esposo tem nacionalidade portuguesa, decidimos vir.” Não se arrependeram. A mãe não se cansa de dizer que Victor “tem melhorado bastante”. “Tinha medo de tudo. Reagia muito aos sons.” Os cães confirmavam a regra: qualquer latido o assustava. “Devagarinho, fui levando a ver cães…” No primeiro encontro com Mira, Victor ainda mostrou “um pouco de medo”. Num progressivo trabalho de aproximação, Chico deslocou-se à casa da família, na Maia, diversas vezes. “Até que foi um processo rápido”, na avaliação de Elizabeth. “Ele percebeu que pode confiar nela. Hoje em dia, são muito amigos.”

Quem os visitava via-o alternar da pequena piscina para o trampolim e para outros instrumentos dispostos nas traseiras da casa e no quintal. “É”, confirmava a mãe, enquanto a irmã, Sofia, de 17 anos, o entretinha. “O Victor não fica o tempo todo ‘grudada’ nela, mas gosta de saber que ela está ali. Faz miminhos nela. Brinca com ela. Ele vai dormir, ela sobe e vai com ele.” O rapaz exige atenção permanente. “Estando acordado, tem de estar alguém com ele”, ia desfiando. “Eu não trabalho. Fico em função do Victor.” Com a pandemia, tudo se tornou mais cansativo. Meses sem ir à escola nem às terapias, e a mãe dividida entre ele e o outro filho, recém-nascido. “Se estiver com ele fazendo actividade e chegar  alguém para falar comigo, ele se altera. Ele vem e dá um grito. Daí a pouco, vem e me belisca. Daí a pouco, vem e me morde. Não adianta botar de castigo porque ele não consegue entender.” Embora inquieto, está mais estável desde que Mira se juntou à família, em Setembro de 2018. A mãe nota até um abrandamento nas convulsões, que começou a ter por volta dos três anos e meio. “Era de difícil controlo. Tomava muita medicação. E sempre tinha crise.” “Ele tinha uma média de oito crises. A Mira chegou, teve três. No último ano, só teve uma.” Não tem explicação para isso. “As vezes que teve crise, chamei a Mira. Ela deitou-se próximo. Estava ali junto. Não sei se solta hormonas que ajudam a relaxar. Sei que ajuda bastante. A medicação é praticamente a mesma que estava usando quando ela chegou. Não posso dizer que foi a medicação que mudou.” Há quem já esteja a investigar essa relação. Elizabeth só pode relatar o que observa. “Eles têm uma ligação forte. Se o Victor se sente ameaçado, ele procura: ‘Mamãe, Mira.’ Chama para junto dele. Para ele, a Mira significa segurança.”

 

Candy e Leonor

Um relâmpago, a integração de Candy na família Lopes. Chico ensinou-a “a andar mais direitinha” e ia deixá-la só umas horas num fim-de-semana, planeando voltar dali a pouco para a deixar um fim-de-semana inteiro. Acabou por deixá-la logo. A família já adoptara a cadela. A mãe assumira a responsabilidade. “Está a correr muito bem”, assegura Sílvia. “Noto uma grande evolução. A Leonor já aguenta ir ao shopping a pé. Tem aquela vaidade de andar com o cão e já não pede a cadeira. Está mais calma. Claro que ainda faz birras. Começam as birras e a cadela vai lá, encosta a cabeça. Dá-lhe aquele clique. A Leonor pára.” Levar a cadela para a escola também a ajuda a socializar. “Os miúdos de outras salas, sem necessidades especiais, têm curiosidade e aproximam-se da Leonor de outra forma.” E isso mudou a sua atitude em relação à escola. Tem mais vontade de ir. “Se digo que a Candy não vai, porque tenho de lhe dar banho, diz logo que não.” Candy só não acompanha Leonor nos treinos de boccia, um desporto adaptado introduzido em Portugal pela Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral. Foi integrada nas terapias. Dorme no quarto dela, no chão, numa caminha. Vai buscar-lhe o calçado. Se for preciso, leva-lhe a lancheira. Leonor aguarda pelo arnês, que tornará mais prática a ideia de se poder segurar. E cumpre a tarefa de levar Candy à rua de manhã. A irmã ou os pais tratam disso ao final do dia. Não querem que Candy se sinta sempre em guarda. “A cadela também tem de brincar, de relaxar”, torna Sílvia. É muito brincalhona. Salta, lambe, rebola no chão. Se lhe dizem para parar, pára. Assume uma postura profissional. “Quando está a trabalhar, está a trabalhar!” A cerimónia de entrega oficial ficou agendada para o final deste mês.

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